Rescaldos

Rescaldo Semanal 05.06.2021

Internacional

O Chefe do bloco da política externa da União Europeia deu a conhecer recentemente que o organismo poderá enviar uma missão de treinamento militar em Moçambique dentro de meses. Entretanto, o mesmo avançou que o envio desta missão carece de aprovação e envolvimento de vários outros países. Até então, Portugal é o único país que manifestou interesse no envio de tropas para missão de treinamento em Moçambique, que já conta com certa de 60 militares em Moçambique para o efeito.

Ao nível da região da África Austral, a Troika da SADC continua a promover encontros com vista a discutir as melhores formas de apoio a Moçambique na luta contra os insurgentes em Cabo Delgado. Os encontros são antecedidos de muita expectativa, mas os resultados vão muito a desejar. Do encontro realizado semana passada, 27 de Maio, não houve nenhuma decisão com relação ao envio de tropas, tendo a Troika limitando-se a manifestar a sua solidariedade para com o povo moçambicano e marcado mais uma sessão para o dia 20 de Junho. 

Com a indecisão da SADC na intervenção a Moçambique, outros países vão mostrando seu interesse no envolvimento de suas tropas em Moçambique. O Presidente da França, Emmanuel Macron, em visita a vizinha África do Sul, manifestou prontidão em ajudar Moçambique a combater a violência armada em Cabo Delgado. No início de Maio, oficiais militares do Ruanda estiveram no país para avaliar o possível auxílio a Moçambique. De acordo com o African Intelligence, cerca de 30 oficiais estiveram no país numa visita não anunciada publicamente. Os resultados do encontro também não foram tornados públicos.  Há dias atrás, um cidadão ruandês foi detido pela polícia moçambicana. A detenção do cidadão ruandês, que desenvolvia actividades comerciais na ilha de Inhaca foi criticada pela Associação dos Ruandeses em Maputo. Não se sabe ao certo se este caso está ligado as negociações entre Moçambique e Ruanda, mas é um dado interessante a acompanhar. 

Teve início na última quinta feira, 3 de Junho, um encontro envolvendo uma comissão conjunta de Defesa e Segurança da Tanzania e Moçambique. No encontro, que teve lugar na capital Dar-Es-Salam, Moçambique foi representado pelo Secretário Permanente do Ministério da Defesa Nacional. O não envio de representantes do alto nível ministerial no encontro sugere que não serão tomadas importantes decisões. Depois da deslocação do Presidente Nyusi à Tanzania em Janeiro último, os dois países não gozam de uma boa relação diplomática. A Tanzania continua a expulsar refugiados moçambicanos que fogem da violência em Cabo Delgado. Apesar do silêncio das autoridades moçambicanas face a deportação massiva de refugiados a aquele país, o Alto comissariado das Nações Unidas para os Refugiados vem deplorando a atitude da Tanzania em não conceder asilo a   moçambicanos. No total, cerca de 3800 moçambicanos já foram devolvidos à força da Tanzania. 

Nacional

A crise humanitária na Província de Cabo Delgado começa a preocupar as autoridades nacionais. Nesta semana, a Ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Verónica Macamo apelou a comunidade internacional, representados por diplomatas e organizações internacionais e regionais, maior apoio na mobilização de fundos com vista a fazer face a situação. A situação humanitária em Cabo Delgado complicou-se ainda mais após o ataque de 24 de Março a vila sede de Palma. Apenas nos últimos 7 dias, a Organização Internacional para a Migração (OIM) registou cerca de de 640 novos deslocados nos distritos de Ancuabe, Balama, Chiure, Pemba, Mueda, e Nangade, trazendo o número total de pessoas que fugiram do distrito de Palma para mais de 67 mil pessoas. 

As crianças em Cabo Delgado não tiveram boas razões para celebrar o dia internacional da Criança. De acordo com a organização Save de Children, cerca de 350 mil crianças encontram-se em situação de deslocadas, e vivem em centros de acolhimento temporários. Muitos destas crianças perderam os pais, não frequentam a escola, não possuem certidões de nascimento e carregam o trauma da violência extrema. Sem o devido acompanhamento social e psicológico, estas crianças correm sérios riscos de se tornarem vulneráveis ao extremismo, num contexto em que vários analistas apontam o surgimento de crianças soldados nas fileiras dos insurgentes. 

O Presidente da Renamo, Ossufo Momade, disse estar preocupado com a lentidão do processo de Desmilitarização e Desarmamento e Reintegração, cujo término do processo estava previsto para este mês de Junho. Entretanto, o Presidente da República, Filipe Nyusi, já deu garantias da retoma do processo até o final deste mês, a contar com as promessas de apoio da comunidade internacional. Nyusi reiterou o apelo para que o líder da Junta Militar da Renamo, Mariano Nhongo se junte ao processo. 

Cabo Delgado

Houve registo de confrontos recorrentes entre as forças de Defesa e Segurança e insurgentes em Muidumbe e Palma na última semana. Depois da recaptura da vila-sede de Muidumbe, Namakande pelas forças de defesa, os insurgentes voltaram a forçar a retirada das FDS da área, conforme escreve o semanário Savana desta semana. O mesmo avança que tanto a sede distrital, Palma, aldeias como Quiwiya, Olumbi e Monjane tem sofrido ataques de forma contínua, o que revelam uma incapacidade dos militares de manter a segurança nestas áreas. E como resultado, as aldeias ficam desertas e as populações se escondem no mato. 

E no mato encontram-se muitos deslocados, entre eles idosos, e crianças, necessitando de todas as formas de apoio. Quem o diz é a Comissão Nacional para os Direitos Humanos, que esteve de visita a Cabo Delgado para avaliar a situação dos direitos humanos. 

O jornal eletrónico @Carta de Moçambique publicou uma nota de reportagem que descreve a ocorrência de uma autêntica pilhagem a vila de Palma, protagonizados pelo exército moçambicano. O jornal avança que a pilhagem iniciou logo após o ataque de 24 de Março, e teve como alvo instituições bancárias, empresas privadas que prestavam serviços a Total, instâncias hoteleiras, entre outros. Num outro desenvolvimento, o jornal @Carta avança que uma mulher foi encontrada morta num quartel do exército na ilha do Ibo. Acredita-se que a mesma tenha sofrido violência sexual.

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